Mensagens

A mostrar mensagens de 2009

O Copo

Imagem
Um copo vazio em cima da mesa Esteve cheio Ontem ao deitar Nesse copo havia espelhos Havia sonhos dentro do brilho E um tempo salgado Onde flutuava a esperança... Em cima da toalha Deitado sobre a sua brancura Enche-se de sombras esse espaço agreste da memória E o copo deita por fora E o passado flutua... As eternas questões precipitam-se... Onde estás tu? Menina que amo desde criança? Onde estás? Onde estou? Porque nunca tive a coragem de te explicar o sentir...? Porque perdi? Porque perdeu o copo a água em que navegavam gestos..?... E os dedos quentes, sólidos de saudade Murmurando a noite vazia Uma lareira crepitando O tempo dilacerado De um ser menos que o fim... Oh... rosto de menino Aos sete anos adormecido no sofá A sonhar com aquele olhar verde azulado Cor de mar em rebeldia E soluçava quando percebia Na sua inconsciência consciente Que o sonho era impossível E no horizonte do universo Ele estava longe de tudo... Na melodia de um sonho Abriam-se ideias mágicas Heróis, homens-pá...
Imagem
Naquela noite Longe demais para hoje Lembrava a tua forma O teu sorriso A tua boca O cheiro das cartas que me escrevias O som do silêncio Puxado nos vazios Da solidão Como um cordel que mantinha o fascínio Suspenso perto de mim Como se fosse em ti A vida uma salvação De destinos perfeitos... Pedro Campos.
Imagem
Será que fui eu que parti Para algum lugar longe de mim? Será que deixei em branco As folhas do bloco de notas? Vadias as palavras viajando em silêncios Enquanto morro em movimento... Terão sido as jaquetas e os casacos A razão de ser um ter sido...? Talvez que o medo desagúe Liquidamente no cerne das coisas... E aqui, longe da solidão... Aqui... possa emergir um cavalo de prata Na sublimação metálica de um grito de adeus... Adeus... Feliz... digo adeus... Pedro Campos.

Despiste

Imagem
Bateu fundo O teu gemido A noite assustada Na madrugada alucinada Com o estrondo profundo De um despiste sem cor A tua dor é vermelha Como esse sangue sem sabor Pedro Campos.

Metamorfose

Imagem
Ontem Olhava o relógio E via nos ponteiros uma intenção diferente Uma força de rebeldia Que puxava pelas cordas do engenho E expressava em palavras surdas Os instantes cessantes Na maré do cais Ontem Não acertava o relógio Todo o tempo tinha o seu tempo certo E não havia instantes esquecidos Lúgubres momentos ecoantes no pensamento Como obcessivos dilemas morais Flutuando em lagos de lamúrias... Na superfície da água... Hoje Relógios sem energia Acerto e reacerto constantemente os momentos que passam Espero revê-los, passados no amanhã Decerto a fantasia irá chamar por mim Ao amanhecer Decerto também a noite será como uma ruína de um castelo de uma história de príncipes e princesas Decerto... a rua toda perca o sentido de caminho Porque... decerto o destino já se desfigurou Em algum areal de uma praia qualquer Num qualquer dia de húmido nevoeiro Em qualquer espelho derretido... uma saudade diluída nas lágrimas alheias de uma doutrina espectral inelutável Em que tu... escutas... calada....

Fernando Pessoa "Não sei ama onde era"

Whitman "Leaves of Grass"

Imagem
Pensar é estar aqui Deambular pelo tempo Percorrer caminhos novos Em terras distantes Sempre.. aqui Pensar... É ir além de nós... No alcance inadiável de um profundo infinito... Pensar... é ser... É ser tudo e nada... E nada poder ser Na antítese plena De pensar o impensável De falar o indizível Ouvir o inaudível... Pensar... É atingir o passo mágico da imaginação É ser o aqui e o agora... De um tempo que transcende as fronteiras do real... Pensar... É estar vivo... E apaixonado pela singularidade do instante. Pedro Campos.

Apenas existir

Imagem
Liberta-te dor! Solta de mim esse peso Afaga-me com sentimento a pele suada E sob as cores de um horizonte esquecido Lembra-te que foste até à beira do abismo Lembra-te que todos os teus passos Foram os meus pés que os caminharam Todos os meus dedos que sentiram a textura do caminho E a dureza da solidão Por isso... Por muito mais... Livra-te de mim... dor! Que o tempo que há... Quero-o apenas para ser menino em ilusões De felicidades e alegrias supremas Sem espaço para dilemas nem questões.... Por favor! Quero cair... aqui... inundado de ignorância Com os olhos sem ver... E a alma anestesiada... com as cores dos lírios do jardim Por favor! Quero um querer que não doa Um estar que seja apenas estar... Um ser que seja apenas existir... Acordar, adormecer, comer, beber E quando alguma dor surgir... morrer...! Morrer entre os véus... De uma musa que irei inventar Quando a dor chegar Aqui. Até lá, tremoços, um copo cheio sobre a mesa e a singela alegria De apenas existir. Pedro Campos.

Porta n.º 53

Imagem
Quando anoitece Aqui estou eu Uma vez mais sentado à porta Número 53. Sou eu ou tu, Ou ninguém, talvez. Sou o verso alado da esperança Em que crê quem já não espera nada... Assim, aqui... Deleito-me a saborear Aromas e paladares De experiências feitas sem guia E tu... Trazes a comida... Deslumbrante a pele Divagante no sentir que mostras Qual caravela flutuante Em dossel de armadura bela Acordo a pensar nesta certeza Que o desenleio das minhas incertezas Me leva até ti, doce desconhecida... Tens voz doce e branca e sublime... Como as lagoas de natureza viva à tua volta Acariciadas por árvores que lhes definem fronteiras E as protegem da sorte Ou do azar... Se eu pudesse... Oh... se eu pudesse...! Se fosse capaz de dizer-te quem sou De falar-te do que vejo Do que sinto Do que quero.... Do que penso aqui... Sob o firmamento...! Se eu pudesse... Mostrar-te a minha cor E beijar-te com fulgor Esses lábios de carne suculenta... pele clara.... em moldura negra... Perfumados com aroma de amo...

Acorde menina!

Imagem
Vá... acorde menina! Não quero ficar todo o caminho às escuras Sem saber se o que imagino é possível ou não Quero que me fale de viva voz! Vá... acorde menina! As cortinas estão já corridas E do Este nota-se um nova luz bela Revirando o olhar em todas as direcções Ande, dê-me a sua mão neste carrossel Sem medos, que o medo atrasa o andamento Destes cavalinhos em festa em cima destas ondas de risadas tontas Vá, venha comigo! Que agora vamos saltar de cima desse penedo cheio de cor E então ficarei a saber se é possível ou não Encontrar a fonte do amor Que o amor... É esse infinito que há na alegria... antes de terminar...! Pedro Campos.

Vem

Imagem
Vem Vem que o tempo dir-te-á o que és... Vem Descobre o que é o brilho escuro da noite Talvez compreendas o que me faz atirar papagaios de papel pela janela do universo Enquanto dou um trago de vinho do Porto, sucumbindo à amargura das horas Em que as unhas se desfazem roídas de ponta a ponta Como uma rocha desgastada pela erosão São essas mãos assim Como o precipício Que me separa da verdadeira imensidão Que é o sonho profundo e belo Que sou eu e tu Em volta de um cavalo a voar... Pedro Campos.

Quando o tempo chegar

Imagem
Como um assobio absurdo Que sobra no ar do caminho Não sou mais que um sopro leve Vestígio ténue do vazio Na janela da encruzilhada O embalo subtil me embala Sou talvez o teu diário Que fechaste sem escrever nada Quando o tempo terminar E as folhas amarelas tu pisares Serei menos que esse sopro Menos que o respirar esquecido Menos que o calor do grito Quando o tempo terminar Haverá apenas a certeza de que um dia fui Absurdamente... nada Quando o tempo terminar Serei alguma coisa que passou... Perto de alguma coisa que me viu passar... Quando o tempo terminar Serei tão somente a esfera mínima de força O nano-universo último A anti-matéria explosiva que sacudirá os mundos em mim Quando o tempo terminar E já não existir mais tempo para me queixar Então recolherás as minhas folhas amarelas, a caneta perfumada e a solidão deixada orfã À luz da manhã Quando esse tempo chegar Irás ler o que deixei E entender que todo o caminho que percorri Trouxe-me onde estou agora À montanha imensa da verda...

Contrário

Imagem
Deleito o tempo aqui Desfaço papoulas azuis em creme silêncio Que o silêncio me eleva ao vazio Aqui adormeço Todas as noites como todos os dias O poema absorto Que a metáfora faz de ti A metáfora Sou louca de ternura E sozinho me acompanho em multidão Sou o expoente de não ser eu nem mais que eu Eu só eu sou vazio E sou neutro De não ser nada Do que os outros são Sou o contrário de tudo...! Pedro Campos.

Oculto-me

Imagem
Estou oculto Ninguém me vê nesta sala cheia de fumo Omito a voz Invisíveis os dedos e os olhos e sonhos nús Transparências onde exibo o que há cá dentro A montra da saudade Com saldos prontos a comprar Ternos ventres abandonados ao relento E poemas, muitos poemas que já não escrevo E ninguém me sente... Sou agora despercebido Cálculo impossível de resultado Sou o fragmento de um limite ultrapassado Ósculos ardentes, volúpia e secretismo Agente disfarçado da ternura Observo o crepúsculo Sentado nos degraus da casa antiga Com cal nos braços Transformo-me numa película leve e esvoaçante Nuvem gelatinosa de confusão Armadilha perene de loucura Sou o diapasão ignorado do som do peito E quedo em vitrais de eloquência Onde a hipótese de eu ser eu agora É tão remota quanto a hipótese de ser ninguém... . E disperso-me.... na sala ambientada com melodias clássicas Castiçais com luz, cortinas vermelhas ao fundo... E um palco em que se eregem discursos recheados Lugar do meu monólogo permanente E ...

À tua frente...

Imagem
Acorda Tens à tua frente as galáxias aos biliões Cometas, estrelas, planetas distantes Poeira infinitesimal Um universo no universo Um templo à espera de erguer-se no vazio E quebrar no topo do mundo A aerodinâmica do vento.... Pedro Campos.

Nulas palavras

Imagem
Nulas palavras...!!! Mensagem ausente Grito aqui! Sou um comboio a vapor Sem mais linha para correr.... Pedro Campos